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Juventude negra e saúde: força, arte e ancestralidade

Escrito por Gustavo Frasão | Publicado: Quinta, 29 de Novembro de 2018, 16h25 | Última atualização em Sexta, 28 de Dezembro de 2018, 12h17

 

Passamos três dias na ilha de Outeiro, distrito da cidade de Belém no Pará, na casa do Coletivo Casa Preta, um espaço de fortalecimento da cultura afro e produção cultural. Entre jambus, barcos e baobá, conversamos sobre sexualidades, afetos, racismo, direitos reprodutivos e SUS.


Texto: Paula Nishizima e Wanda Marques Araújo

Um lugar chamado Casa Preta

Na entrada, tambores. A poucos passos, um quintal. Um vaso com uma muda de baobá, árvore nativa do continente africano. Dentro da casa, pilhas de livros e mais livros indicam uma biblioteca em formação. A história do Coletivo Casa Preta em Outeiro (distrito localizado na ilha de Caratateua, ao norte de Belém do Pará) é recente, porém, o grupo tem resistido há dez anos em outras localidades da capital paraense.

Desde seu surgimento, o coletivo realiza atividades como oficinas de grafite, confecção de tambores e edição de áudio e vídeo. Além de abrigar essas atividades, o espaço físico da Casa é um lugar de reverência à ancestralidade, de fortalecimento de conhecimentos e práticas de matriz africana e representativas da identidade negra.

Foi nesse ambiente que conheci o primeiro grupo disposto a falar de afetos, cuidado e saúde conosco, com o DiverSUS: Jovens residentes em Belém (PA) e responsáveis, em alguma medida, pelas ações de educação, cultura e comunicação do coletivo Casa Preta. Também foi ali que aprendi a fazer arroz paraense, a preparar e comer açaí puro, e a enxergar as conexões entre saúde sexual, saúde reprodutiva, racismo e sexismo.

Créditos: UNFPA Brasil/ Paula Nishizima
004.IMG 0255 Paula Nishizima Juventude Negra Belém PA HQ
Luana Carolina Corrêa, uma das responsáveis pela Casa Preta, pendura um pingente na muda de baobá. A primeira atividade de diálogo do DiverSUS em Belém foi a permeada pela escolha de um objeto que melhor representasse cada participante.

A força está na ancestralidade

Uma vez em Belém (PA), há duas formas de chegar a Outeiro. A primeira é atravessando à pé a ponte Enéas Martins, que tem uma vista deslumbrante da ilha de Caratateua, sua vegetação e seu entorno banhado pela imensidão do Rio Maguari. A segunda opção, tão bela quanto a anterior, é usar o ponto de travessia de barcos localizado no fim da Rua Dois de Dezembro, no Distrito de Icoaraci. Nesse ponto, pessoas e mercadorias são atravessadas em barcos distintos para a ilha do outro lado do rio.

É exatamente aqui que me encontro nesta manhã ensolarada, observando a grande movimentação de pessoas e produtos, a qual deixa escapar um pouco das relações humanas do lugar. Os rostos sérios e expressões cansadas de trabalhadores e trabalhadoras dividem espaço com olhares atentos e conversas animadas de quem espera ou está de passagem. Na troca de olhares e cumprimentos, percebo uma proximidade entre as pessoas diferente do convívio proporcionado pela correria dos grandes centros urbanos.

Antes de atravessar, nos encontramos com Josinalva Alves, jovem que participa das atividades do coletivo Casa Preta e mora em Terra Firme, bairro da periferia de Belém. Josy (como prefere ser chamada) chega com um largo e contagiante sorriso. De longe é possível perceber o orgulho que tem de suas raízes: seus grandes brincos largos e seu turbante marcam uma expressão imponente, reforçando o poder da ancestralidade nessa jovem de 19 anos.

“Esse brinco aqui, por mais simples que pareça, significa muito para mim por ser uma simbologia do continente africano, que é onde encontro forças”, conta Josy, ao se referir ao par de adereços que está usando, vazados com o formato daquele continente.

Ao falar dessa mesma ancestralidade, ela reconhece que se trata de algo que não aconteceu da noite para o dia: “Eu não nasci com essa ligação, no sentido de ter consciência dela. Ela foi construída ao longo do tempo”. A fala traduz um pouco o que poderia ser entendido como o processo de construção de uma consciência e de uma identidade negra: resgatar suas origens para se fortalecer e enfrentar as profundas desigualdades deixadas pelo período de escravidão no Brasil.

UNFPA Brasil/ Paula Nishizima
006.IMG 0671 Paula Nishizima Juventude Negra Belém PA HQ
Josy Alves, participante das atividades do coletivo Casa Preta, durante a travessia de barco entre o bairro de Icoaraci e a ilha de Caratateua, em Belém (PA)

Josy sabe que o racismo é uma barreira também no campo da saúde, especialmente porque ser saudável não é só estar livre de doença, mas, sim, desfrutar de uma condição de bem-estar físico, mental e social.

Juventude negra e o acesso à saúde

De acordo com o Boletim Epidemiológico v. 46, n. 10 do Ministério da Saúde de 2015, negros e negras acabam realizando menos consultas com médico e dentista se em comparação a pessoas brancas, alcançando um percentual menor do que a média nacional de pessoas que consultaram esses dois profissionais nos 12 meses anteriores à pesquisa.

Essa lógica também se repete no número de consultas pré-natal e exames de mamografia em mulheres acima de 50 anos. Por isso, não é exagero quando Josy afirma que uma mulher negra moradora de periferia tem menos acesso a informações sobre, por exemplo, meios contraceptivos se comparada a mulheres não negras: as condições socioeconômicas às quais ela está sujeita dificultam seu acesso aos serviços de saúde.

Quando pensamos em outros contextos, vemos que a questão do acesso enfrenta também barreiras geográficas. Arilson do Carmo, de 19 anos, que também nos acompanhava na travessia de barco para Outeiro, conta que sempre que precisava recorrer a uma unidade de saúde, tinha de se deslocar para a cidade mais próxima. Arilson é um jovem de expressão séria e olhos atentos que saiu da comunidade quilombola de Cachoeira Porteira, no município de Oriximiná (PA), para tentar ingressar na universidade. Ele mora hoje na Casa Preta e é o responsável pela rádio comunitária do coletivo.

 

Créditos: UNFPA Brasil/ Paula Nishizima
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Arilson do Carmo, 19 anos, enquanto aguarda término de uma entrevista em vídeo, próximo às margens do Rio Maguari.

 

A distância dos grandes centros urbanos e dificuldades no acesso ainda são uma realidade para as comunidades quilombolas. Na saúde, não é diferente. Porém, os estereótipos e pressupostos associados a essa população ajudam a reforçar um estigma de isolamento, naturalizando a ideia de que essas pessoas não podem se apropriar de tecnologias ou mesmo exigir direitos básicos, como o acesso à saúde e à educação.

O próprio sistema de saúde acaba, por vezes, reproduzindo também a discriminação. A Pesquisa Nacional em Saúde de 2013 reporta que os grupos que mais se sentiram discriminados ao acessar algum serviço de saúde foram as mulheres, as pessoas de cor preta e parda e aquelas com ensino fundamental incompleto. Estatísticas que se refletem na memória que Josy tem da mãe pedindo que ela fosse sempre bem arrumada ao médico quando criança, temendo um possível tratamento indigno.

Tal qual Josy, compreender seu papel na coletividade e se ver como parte de seu povo é algo muito forte em Arilson. Para ele, saber cada vez mais sobre suas raízes o ajuda a enfrentar todos os tipos de preconceito. Seu sonho é se formar em engenharia e voltar para Cachoeira Porteira para contribuir com o desenvolvimento da comunidade. Sua força também está em incentivar outros quilombolas a conquistarem o ensino superior.

A motivação de Arilson me trouxe um novo sentido: o de pertencimento. Entendi ali que cuidar de si é também cuidar de um povo todo. Fortalecido, ele tem condições de cuidar de parentes, amigos, de sua comunidade, enfim. E já vou adiantando: vou voltar a Belém para essa formatura, pode reservar o convite!

Comunicação, cultura e saúde

"Eu nunca faço grandes planos para alcançar uma meta. Eu vou vivendo os dias e as oportunidades, tentando aprender e aproveitar tudo", é uma das primeiras coisas que ouço ao encontrar Taires Pacheco, Tatá para os íntimos. É já na ilha de Caratateua, à beira das águas do Rio Maguari, que Tatá me conta um pouco de sua história.

Créditos: UNFPA Brasil/ Paula Nishizima
005.IMG 0630 Paula Nishizima Juventude Negra Belém PA HQ
A jovem atriz Taires Pacheco, 28 anos, se olha nos espelho enquanto aguarda a travessia de barco para o distrito de Outeiro.

 

Aos 28 anos, Tatá participa de um grupo teatral, com o sonho de ser reconhecida pelo seu trabalho e com ele poder ajudar a mãe. Taires almeja um mundo no qual jovens artistas tenham espaço e respeito pela sua profissão, do skatista à atriz, da musicista ao grafiteiro. “Que não vejam meu trabalho como ​hobbie​, porque não é. Quero leis que respeitem meu espaço de trabalho”, diz com firmeza.

Uma dessas leis é o Estatuto da Juventude (Lei nº 12.852/2013), que prevê que pessoas com idade entre 15 e 29 anos tem direito à cultura (art. 21), sendo dever do Estado garantir a esse público não só o acesso a bens e serviços culturais, mas também promover a participação de jovens na produção cultural e na tomada de decisões sobre políticas públicas relacionadas à área da cultura.

Como toda legislação, o Estatuto da Juventude também enfrenta desafios para ser colocado em prática. Exemplo disso é que, para Tatá, ser jovem na ilha significa não só ter de enfrentar os preconceitos associados à periferia, mas também a falta de espaços de lazer e cultura acessíveis para as juventudes.

E o que isso tem a ver com saúde? Além de a arte e a cultura terem um papel importante na construção do bem-estar mental e social das pessoas, outro ponto chave para Tatá é a comunicação, a abordagem: “Em vez de eu ir até o sistema de saúde, acho que ele também deve se fazer presente onde eu estou. Quando vão fazer campanha, as pessoas vão todas formais. Tem que ter um diálogo diferente, sabe? De forma aberta e não técnica”.

Estar onde as juventudes estão pode significar muitas coisas: de ações em eventos artísticos e festas na orla até campanhas em parceria com espaços de convivência jovem. As estratégias podem ser distintas, mas o que importa mesmo é comunicar de maneira respeitosa para os diferentes contextos e identidades.

Desafiadas, mas nunca sós

Terminada a conversa com Taires, nos deslocamos para encontrar outra jovem que participa das atividades da Casa Preta. Para chegar à casa de Lis Mayara Ferreira tive de me aventurar em um mototáxi. Um lembrete emocionante para quem já não lembrava como era andar de moto.

A morada de Lis me faz lembrar os lares da minha infância: casa simples e espaçosa, com um quintal bem grande, daqueles onde os primos se juntam para brincar. Adentrando o quintal da casa dessa jovem de 28 anos, os visitantes encontram árvores, flores e ervas. Estas últimas são usadas em chás e banhos, que aprendeu a fazer com outras mulheres mais velhas, conhecedoras do uso de plantas medicinais para o cuidado em saúde.

Sentada em um balanço preso a uma árvore nesse mesmo quintal, Lis conta que almeja independência financeira para suprir suas necessidades e as de seu filho, Nicolas, hoje com quatro anos, mas de quem cuida sozinha desde o nascimento. Dentre seus planos está cursar Ciências Sociais, sonho temporariamente adiado pelos desafios que a maternidade solo lhe trouxe. “Não é fácil cuidar da casa e da ‘cria’ sozinha. Sinto falta de ter alguém com quem dividir essas obrigações, sabe? Desejo tempo para cuidar de mim, fazer algo que eu realmente deseje fazer”, desabafa.

A realidade de Lis também é compartilhada por muitas outras mulheres no Brasil: em 2015, elas representaram 40% das chefes de família no país, de acordo com dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Ainda de acordo com a mesma pesquisa, as mulheres negras foram as responsáveis pelo sustento e cuidado de 58% das famílias sem a figura paterna.

Apesar de ter se separado do então companheiro antes do nascimento de Nicolas, Lis contou com o apoio de outras mulheres que a ajudaram a seguir em frente. Ao passar por entre os dedos uma pedra verde grande, lisa e redonda que serve de pingente ao colar que está usando, Lis conta que aquele foi um presente de uma amiga com a qual passou a frequentar uma roda de conversa de mulheres. Espaço no qual oferecem ouvidos atentos e peito aberto para apoiarem umas às outras nos desafios cotidianos.

Créditos: UNFPA Brasil/ Paula Nishizima
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Lis Mayara Ferreira, de 28 anos, dialoga com a equipe em sua casa, antes da entrevista.

Por meio dos pequenos gestos e anseios dessa juventude de Belém, saio daqui com a forte impressão de que os laços afetivos cumprem um papel fundamental no cuidado consigo e com o outro, nutrindo a auto-estima e o bem-estar de cada indivíduo. O antídoto para a realidade dura que se impõe continua sendo buscar força uns nos outros e naqueles que vieram antes de nós, mas trilharam primeiro o caminho que hoje permite a nossa passagem.

 

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