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As experiências de jovens em situação de rua em Recife (PE)

Escrito por Gustavo Frasão | Publicado: Quinta, 29 de Novembro de 2018, 16h26 | Última atualização em Sexta, 28 de Dezembro de 2018, 12h17


Chuva e sol. Recife, Pernambuco. Estivemos juntos três dias conversando com jovens em situação de rua que frequentam o Centro da Juventude - Santo Amaro e com dois jovens que já estiveram na rua e hoje produzem arte como resposta ao uso abusivo de drogas. Teve poesia, toada de maracatu de baque solto e muitas lágrimas.


 

Texto: Paula Nishizima

Contando histórias felizes

Em um círculo formado por carteiras escolares num espaço semi-coberto ao fundo do Centro de Juventude de Santo Amaro, na região central de Recife (PE), jovens em situação de rua compartilham algumas de suas experiências. São guiados(as) com a orientação de que compartilhem com os(as) demais a história mais feliz de que se lembram e elejam uma palavra que a represente.

Aos poucos, vão surgindo memórias relacionadas à infância, como empinar pipa e brincar com bolinhas de gude. Dentre as histórias compartilhadas, está a de uma moça que relata uma lembrança que tem da mãe, que a colocava para dormir quando pequena. “Ela deitava na cama comigo, aí eu pegava no sono. Eu colocava uma perna em cima dela, pensando que se ela saísse eu ia sentir, mas ela saía bem de fininho e quando eu acordava, tinha um urso de pelúcia bem grandão no meio das minhas pernas”, conta Rayane, jovem de 23 anos que leva os cabelos presos e veste blusa, casaco e shorts cor de rosa.

“Ela ia para o bar, aí eu me levantava só de calcinha e ia atrás dela, chorando”, conta entre risos. Sem saber ao certo que palavra escolher para resumir sua história, Rayane pede ajuda a outro jovem que sopra “É ‘carinho’!”. A palavra, agora anotada em uma tarjeta de papel colorido junto a outras tantas, pode ser usada para descrever não só a narrativa, mas também sua autora, que circula pelo local da atividade trocando abraços com a equipe aqui e ali. Em dado momento da dinâmica, Rayane para e se dedica a acariciar e trançar os cabelos de Wanda, jovem consultora que integra a equipe do DiverSUS, enquanto ambas ouvem as histórias de outras pessoas.

Créditos: UNFPA Brasil/ Paula Nishizima.003.IMG 1451 Paula Nishizima Jovens em situação de rua em Recife HQ“Carinho” foi a palavra usada por Rayane para definir a história mais feliz que se lembra de ter vivenciado.

 

Ao longo da atividade, as vivências felizes são, invariavelmente, atravessadas pela dureza da realidade de quem faz da rua sua moradia. A quebra de vínculos com a família, a falta de oportunidades de trabalho e o fácil acesso a drogas ilícitas são alguns dos fatores que compõem o cotidiano desses e dessas jovens.

Me chama a atenção o número de participantes que vivem a situação de rua desde a infância, muitos(as) saíram de casa por causa de eventos traumáticos, como a morte violenta do pai ou os maus tratos sofridos por parte de familiares. Algumas dessas pessoas não só foram parar na rua quando criança, mas permanecem nela até a juventude.

É o caso de Hildejane Ferreira da Silva, jovem de estatura baixa e cabelos cacheados que exibe uma série de finas pulseiras coloridas adornando seu braço direito. Pelo que nos conta, ela estava entre a primeira e a segunda série do ensino fundamental quando um tio ateou fogo à casa que morava com a mãe e a irmã no Alto da Bondade, bairro de Olinda (PE), para roubar de lá um aparelho de som e uma televisão. Da casa em chamas saíram só as três moradoras. Na época, Hildejane tinha nove anos de idade.

Dados sobre população em situação de rua

De acordo com o documento “Diretrizes Nacionais para o Atendimento de Crianças e Adolescentes em Situação de Rua”, publicado em 2017 e produzido por Grupo de Trabalho instituído pelo Conselho Nacional de Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), não existem dados oficiais sobre o número de crianças e adolescentes em situação de rua no Brasil.

Entretanto, a última pesquisa feita entre 2007 e 2008 pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome sobre o perfil de pessoas maiores de 18 anos em situação de rua, identificou à época cerca de 31 mil pessoas vivendo nas ruas de 71 cidades brasileiras. Do total de homens entrevistados para a pesquisa, 15% estavam entre os 18 e os 25 anos e 27% se encontravam entre os 26 e os 35 anos. No caso das mulheres, essas porcentagens eram de 21% e 31%, respectivamente.

Em um momento de pausa da programação, o grupo de jovens que estava anteriormente conosco em roda agora se reúne em torno de uma pequena mesa. Enquanto a maioria está em pé, quatro ou cinco participantes se sentam e jogam uma partida de dominó. Jogadores e jogadoras batem as peças escolhidas contra a mesa, cada um(a) na sua vez, e a partida é acompanhada por exclamações ora de empolgação, ora de queixa.

 

Créditos: UNFPA Brasil/Paula Nishizima
001.IMG 1389 Paula Nishizima Jovens em situação de rua em Recife HQ
Hildejane e a irmã Jéssica, que também está atualmente em situação de rua, guardam as peças após uma partida de dominó no Centro de Juventude(CJ) de Santo Amaro, em Recife (PE).

 

O Centro de Juventude fica no bairro Santo Amaro, na capital pernambucana, e é um espaço onde jovens em situação de rua participam de atividades de formação (como alfabetização e cursos profissionalizantes), podem fazer refeições (café da manhã e almoço), além de ter espaço destinado a higiene pessoal (chuveiro para banho) e biblioteca. O Centro também assiste a comunidade de Santo Amaro e jovens em cumprimento de  medida socioeducativa.

Maternidade e paternidade

Foi também na rua que Hildejane conheceu o pai de seus três filhos. “Quando eu estava grávida foi ele quem me socorreu. A minha bolsa tinha estourado, ele me levou até o IMIP (Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira) na ‘cacunda’, porque não tinha carro nem nada”, conta.

Ela tinha 16 anos quando se conheceram. Na época, ele trabalhava na rua, ajudando motoristas a estacionar. Hildejane chegou a morar um tempo com o companheiro, mas foi expulsa da casa pela família dele quando esta descobriu que ela usava cola. O consumo do inalante também é o que faz com que a família paterna, que hoje cuida dos três filhos de Hildejane, não permita o contato destes com a mãe.

“Os meninos ficaram com elas (avó e bisavó paternas), para não vir para a rua, não seguir o mesmo caminho que eu. Hoje em dia eles só me conhecem através de fotos”, completa, sem deixar de mencionar que se sente magoada com a situação.

Créditos: UNFPA Brasil/ Paula Nishizima
006.IMG 1798 Paula Nishizima Jovens em situação de rua em Recife HQ
Equipe passa por uma mensagem fixada na parede de uma área externa do CJ de Santo Amaro enquanto se locomove para realizar a entrevista com Hildejane.

 

Do ponto de vista legal, mães que estão em situação de rua não podem ter filhos(as) retirados(as) de seu convívio por via judicial tendo como única justificativa a ausência de recursos materiais. Nesses casos, o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº 8.069/1990) prevê a inclusão da mãe e/ou da família em serviços e programas oficiais de proteção, apoio e promoção.

“(...) Decisões imediatistas de afastamentos das crianças de suas mães, sem o devido apoio e acompanhamento antes, durante e após o nascimento, bem como uma avaliação minuciosa de cada situação, violam direitos básicos, tais como a autonomia das mulheres e a convivência familiar”, indica o texto de nota técnica conjunta emitida em 2016 pelo Ministério da Saúde e o ex-Ministério de Desenvolvimento Social e Agrário.

Algumas instituições públicas podem assumir o papel de auxiliar pessoas que estão em situação de rua a se reaproximarem de suas famílias, se assim o desejarem, e intermediar o acesso a serviços sociais. É o caso dos Centros de Referência da Assistência Social (CRAS), que são o meio de acesso a programas vinculados ao Cadastro Único, como o Programa Bolsa Família e o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil - PETI.

Dentre os jovens que compartilham conosco suas experiências de paternidade e maternidade está também Edilson José da Silva, cuja entrevista começa com música: o jovem de 27 anos dá bom dia para a equipe do DiverSUS em ritmo de maracatu de baque solto, brincadeira da qual participa por influência do pai, que já foi mestre e caboclo de lança, e da mãe, que era baiana (figuras que fazem parte do cortejo). Foi também às vésperas de uma sambada que Edilson recebeu o telefonema avisando do nascimento de sua filha.

Para não deixar o grupo sem o puxador na última hora, festou. Foi ver a menina poucos dias depois, quando ela já estava na casa da mãe. “Não vou mentir, eu não aguentei a emoção e comecei a chorar. Eu olhei assim e pensei ‘ô, Deus do céu, o que vai ser de mim agora?’”, recorda. Pelo que nos conta durante a conversa, hoje Edilson vê a filha ocasionalmente.

 

Créditos: UNFPA Brasil/ Paula Nishizima.010.IMG 1848 Paula Nishizima Jovens em situação de rua em Recife HQBastidores da conversa com Edilson, na biblioteca do Centro de Juventude de Santo Amaro.

 

Você sabia?

Em 2011, foram criados 92 Consultórios na Rua, em meio a outras ações que fazem parte da Política Nacional de Atenção Básica (PNAB) do Ministério da Saúde. Os Consultórios na Rua são unidades itinerantes que se destinam a atender pessoas em situação de rua e cujo horário de funcionamento deve atender à demanda dessa população no local em que está estabelecido. Cada Consultório tem um mínimo de quatro profissionais, sendo estes geralmente um(a) enfermeiro(a), um(a) psicólogo(a), um(a) assistente social e um(a) terapeuta ocupacional.

Além dos Consultórios na Rua, pessoas em situação de rua também podem buscar atendimento em Unidades Básicas de Saúde (UBS), Centros de Atenção Psicossocial (CAPs), Unidades de Pronto Atendimento, hospitais (em caso de emergência) e por meio do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU 192).

De acordo com Nota Técnica Conjunta lançada em 2016 pelo Ministério da Saúde e Ministério de Desenvolvimento Social e Agrário, a ausência de documento de identificação ou mesmo endereço convencional não devem ser barreiras para o cuidado em saúde, sendo dever do(a) profissional da área garantir o acesso universal e igualitário a ações e serviços em saúde. Em se tratando de adolescentes, tem-se o direito a receber atendimento sem a necessidade de estar acompanhado(a) de responsável legal.

A expressão de quem está nas ruas

Enquanto fotografo algumas mensagens e desenhos que colorem as paredes do Centro de Juventude (procurando talvez encontrar algum sentido ao qual não me ative na chegada), um grupo de rapazes se dispersa ao sair de dentro de uma sala próxima. Ouço então um pedido que, instantes depois, percebo ser dirigido a mim: “Ei, filma eu recitando um poema!”.

O pedido vem de Wesley Guilherme da Silva, jovem de 24 anos que me aborda na saída de outra atividade no Centro. Já sentado em um banco na parte externa do espaço, vai lançando as rimas de um poema autoral que havia produzido dias antes, perto da hora de dormir. A produção intitulada “Direitos de um jovem” fala de luta por direitos iguais em meio a violência policial, mídia sensacionalista e desigualdade social.

Créditos: UNFPA Brasil/ Paula Nishizima.008.IMG 1738 Paula Nishizima Jovens em situação de rua em Recife HQWesley, de 24 anos, produz poesias de crítica social para falar da realidade que vê nas ruas.

 

“Eu vejo uma cena, aí eu já procuro tirar uma frase, uma letra dali. Não busco inspiração, não, eu vejo o que está acontecendo no dia a dia e boto para fora”, conta durante entrevista com a equipe do DiverSUS. Além de “Direitos de um jovem”, Wesley guarda outras produções em diferentes lugares de Recife por onde já passou. “Tem gente que pensa que morador de rua é coisa do mal. Pelo contrário, tem gente boa também que não está nessa vida porque quer. Gente que quer sair dali, mas não consegue”, desabafa.

Se a linguagem (essa, falada e escrita) é um traço característico humano, a forma de expressão mais gritante usada por estes(as) jovens em situação de rua é a própria pele, que ostenta tatuagens com nomes de pessoas (em muitos casos, filhos e filhas), mensagens religiosas ou mesmo desenhos.

Créditos: UNFPA Brasil/ Paula Nishizima002.IMG 1301 Paula Nishizima Jovens em situação de rua em Recife HQJovem exibe mensagem inscrita no braço para dizer que “Amor, só de mãe”.

 

As palavras e imagens, tatuadas ou escritas à mão com caneta esferográfica na pele, lembram que, se esses corpos estão marcados pelas inúmeras vulnerabilidades às quais se está exposto ao viver nas ruas, eles também carregam marcas que se escolheu imprimir ali. Aquilo que, de alguma forma, representa algo valioso, querido ou mesmo almejado. Nesse sentido, essa mesma linguagem integra a resistência dessas pessoas frente a uma sociedade que tão comumente esquece de sua humanidade.

Quem não está mais nas ruas

Numa noite de quinta-feira, um grupo de jovens sobe ao palco do Teatro Apolo, no centro de Recife, para encenar uma peça sobre LGBTFobia. O espetáculo faz parte de um projeto social realizado pela ONG Fábrica Fazendo Arte e usa a dança e a música para abordar a discriminação. Apesar de acompanhar o grupo já há alguns anos e também participar das atividades da organização que realiza a peça, Gigi Abagagerry está hoje na plateia, prestigiando os(as) colegas.

Gigi é uma pernambucana de 34 anos que vive com HIV e já passou pela situação de rua. É ao fim da peça teatral, em meio a abraços trocados e agradecimentos, que temos a oportunidade de conhecê-la pessoalmente e convidá-la para uma entrevista, a qual é agendada para o dia seguinte na casa em que a equipe do DiverSUS está hospedada.

Nascida em Jaboatão dos Guararapes (PE) e criada pela bisavó em Recife, Gigi passou a ser responsável por sustentar os irmãos já com 16 anos de idade, momento no qual sua mãe faleceu. Saiu de casa aos 18 e, após a morte da bisavó, passou por uma transição: de Flávio, então homem gay, Gigi se assumiu enquanto travesti.

“Foi como se eu tivesse dado um tapa na cara da minha família. Eu já tinha saído de casa e quando eu voltei para visitar a minha família, eu já voltei transformada. Já não me aceitavam gay, e agora ter dentro de casa um neto, um sobrinho, um primo, um irmão com trajes de mulher, aí é que eles não aceitavam mesmo”, conta.

Além de enfrentar o desafio de ser reconhecida pela família por sua identidade de gênero, Gigi também passou pelo uso abusivo de substâncias psicoativas, especialmente o crack, que produziu efeitos devastadores em sua saúde. Nessa época, sem a aceitação da família por sua identidade e associada ao uso abusivo, Gigi recorreu às ruas para garantir a sobrevivência e trabalhou como prostituta. Ao perceber que estava chegando ao limite do próprio corpo com o uso do crack, Gigi pediu ajuda a parentes, que lhe ofereceram como solução a estadia numa comunidade terapêutica. Porém, para passar pelo tratamento, ela não poderia ser Gigi: teria que se portar novamente como Flávio.

“A minha vontade era tão grande de sair do crack que eu topei”, conta. “(Dentro da casa de reabilitação) as pessoas sabiam que eu estava lutando não só contra o uso do crack, mas contra a minha identidade de gênero. Eles sabiam porque estava na minha face a minha dor, a minha luta. E eles me respeitavam enquanto àquela luta que eu estava enfrentando”, diz ao lembrar que convivia diariamente com outros 33 homens que viviam na casa.

Ela recorda que, por ser travesti, foi a única a ter de fazer o teste rápido de HIV para ingressar na comunidade terapêutica: um procedimento que denota preconceito se comparado ao fato de que tal exame não era exigido aos demais ingressantes como condição para iniciar o tratamento. Foi em 2011, nessa ocasião, que Gigi descobriu ser soropositiva. "Aí a minha vontade de lutar contra o crack foi maior. Eu disse 'eu não posso deixar que nem o HIV nem o crack me matem, eu preciso lutar contra os dois’”, lembra. Gigi nos conta que depois de sair do tratamento, precisou voltar a viver nas ruas, uma vez que sua família ainda se recusava a aceitá-la. Nesse contexto, o crack voltou a fazer parte da sua vida.

Tempos depois, ingressou em um programa estadual de atendimento e apoio a usuários(as) de álcool e outras drogas, no qual permaneceu por três meses. Foi nesse meio tempo que conheceu o trabalho da ONG Fábrica Fazendo Arte, ao assistir a uma peça sobre violência sexual infanto-juvenil realizada pelo grupo. “Eu nem sabia com o que eles trabalhavam, eu imaginei só o teatro, que eu queria fazer aquilo também, contar a minha história de um jeito diferente”, afirma.

 

Créditos: UNFPA Brasil/ Paula Nishizima009.IMG 2045 Paula Nishizima Jovens em situação de rua em Recife LQGigi, logo após entrevista para o DiverSUS, no espaço onde a equipe do projeto ficou hospedada, em Recife (PE).

 

Gigi passou ainda por outros altos e baixos até chegar a um patamar que a permitisse seguir em frente. Hoje, ela concluiu o ensino médio e retomou a relação com a família. Gigi também orienta suas ações pela perspectiva de redução de danos, cujo foco é diminuir os impactos dos problemas de saúde e de outras questões socioeconômicas e culturais relacionadas ao uso de álcool e outras drogas. “Eu já conheci Brasília, o Rio de Janeiro, Salvador, indo trabalhar para a mudança de pessoas, respeitando quem elas são, levantando a bandeira LGBT e dizendo que morador de rua tem jeito, sim. Que eles são gente também como a gente”, comenta satisfeita.

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