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Multiplicadores(as): a saúde de jovem para jovem no Acre

Escrito por Gustavo Frasão | Publicado: Quinta, 29 de Novembro de 2018, 16h28 | Última atualização em Sexta, 28 de Dezembro de 2018, 12h16

 

Eles são da floresta, e como tal, não estão apenas conectados ao que acontece na realidade virtual, mas na tecnologia leve de saber conversar com outros jovens. Eles são multiplicadores de saúde e nos deixaram conhecer suas vidas por três dias em Sena Madureira/AC.


Texto: Paula Nishizima e Wanda Marques Araújo

Jovens que desatam nós

O cenário é uma sala de paredes e piso com azulejos brancos. As janelas pintadas de azul marinho estão fechadas, já que o ar condicionado está ligado para amenizar o calor de Sena Madureira (AC), cidade localizada a aproximadamente 140 km de distância de Rio Branco, capital do Acre. Nesse ambiente, um grupo de cerca de 20 participantes está em círculo, a maioria jovens.

Alguém orienta que cada pessoa deve memorizar quem está à sua esquerda e também à sua direita. Em seguida, as pessoas se movem pelo espaço de modo desordenado, desfazendo o círculo inicial. Ao fim de poucos segundos, o facilitador dá um sinal para que todos(as) parem onde estão.

Nessa hora, o desafio do grupo é dar as mãos para quem antes estava próximo sem caminhar pelo local (ou caminhando o mínimo possível). Cada um(a) deve dar a mão esquerda para a pessoa que estava à sua esquerda na roda e a mão direita, quem estava do seu lado direito no início da atividade.

Em meio a exclamações de divertimento, ouvem-se alguns nomes gritados entre risos. O resultado é um grande emaranhado de gente esticada ou encolhida, de frente ou de costas, de braços estendidos ou cruzados. A única constante são as mãos que permanecem todas unidas em meio a esse pequeno caos.

A última tarefa é desatar o nó humano sob uma única condição: Um(a) não solta a mão do(a) outro(a) até que o grupo esteja disposto em círculo novamente, tal qual no começo da atividade. Essa foi a dinâmica escolhida por jovens multiplicadores e multiplicadoras em saúde para receber a equipe do DiverSUS em seu primeiro dia no estado do Acre.

Créditos: UNFPA Brasil/ Paula Nishizima
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Uma leve espiada dentro da sala onde aconteceram os primeiros diálogos com jovens multiplicadores(as) em saúde.

Quem são os(as) jovens multiplicadores(as)

“Eu sempre fui um jovem multiplicador, só não sabia disso”, é a reflexão feita por João André de Souza após alguns minutos de conversa. João é um jovem de 18 anos que vive em Cruzeiro do Sul, cidade que fica a cerca de 600 km de Rio Branco. A multiplicação à qual se refere é o trabalho que realiza como voluntário em escolas e outros espaços de circulação de juventudes no município onde mora.

Com a tarefa de levar informação e dialogar de maneira aberta sobre sexualidades, João e outros(as) multiplicadores(as) de diferentes municípios acreanos fazem palestras, peças de teatro, paródias musicais e outras atividades para que o tema chegue a mais jovens no estado.

Dentre os assuntos que fazem parte do cotidiano de multiplicadores e multiplicadoras estão o uso correto de métodos contraceptivos para a prevenção de HIV/Aids e infecções sexualmente transmissíveis (IST’s), gravidez não intencional na adolescência, informações sobre os serviços disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS) e como acessá-los e o diálogo sobre uso abusivo de álcool e outras drogas.

João e demais colegas também participam de formações com profissionais de educação, saúde e assistência social a respeito desses temas. Segundo informações da Secretaria de Estado da Saúde do Acre (Sesacre), 348 adolescentes e jovens já participaram de oficinas para se tornarem multiplicadores(as), dos quais cerca de 120 estão atualmente ativos(as).

Créditos: UNFPA Brasil/Paula Nishizima
001.IMG 2574 Paula Nishizima Jovens de Florestas no Acre HQ
Abraço coletivo ao fim da atividade com jovens multiplicadores(as) no primeiro dia em Sena Madureira (AC).

Após sermos recebidos com a dinâmica das mãos dadas, foi a partir das vivências de cerca de 15 jovens multiplicadores de diferentes municípios que pudemos colher um pouco dos desafios e motivações que os(as) levam a esse trabalho.

Quebrando o tabu da sexualidade

Que a sociedade ocidental vê como tabu o exercício das sexualidades na adolescência, todo mundo sabe. O que nem todo mundo percebe é que, para além de ser composta por processos físicos e químicos, ela também é uma forma de expressão. O olhar que muda quando a crush se aproxima, a mexida no cabelo e o jeito de andar quando se está confiante são todas expressões da sexualidade de cada um(a).

Porém, a recusa em falar sobre o assunto provoca uma espiral de silêncio que nos leva ao desconhecimento de nós mesmos(as). “Eu estava vestindo uma calça preta, lembro até hoje. Eu olhava e me perguntava ‘de onde é que está saindo esse sangue?’”, nos conta Luziete Castro, jovem de 19 anos que usa um lenço em cores pan-africanas (vermelho, dourado e verde) para adornar os volumosos cabelos crespos. “Aí eu fui falar com a minha mãe e ela disse ‘nossa, agora você é uma mocinha, filha’. Comprou um pacote de absorvente e entregou na minha mão. Eu não tive conversa, orientação nenhuma”, relembra.

Luziete é multiplicadora de saúde em Manoel Urbano (AC), cidade com cerca de 8 mil habitantes de acordo com dados de 2016 da Secretaria de Estado de Planejamento do Acre. Ao mencionar experiências próprias com a pressão de amigas que tiveram uma relação sexual antes dela e um relacionamento com um ex-companheiro mais velho, Luziete também destaca a importância de saber dizer não quando se percebe que a expectativa de outra pessoa implica em uma violência contra você mesma(o).

O diálogo sobre sexualidades e consentimento também é importante para prevenir diferentes formas de violência sexual. Essa abordagem se mostra relevante especialmente para o público feminino, uma vez que elas correspondem a 92,4% das vítimas de violência sexual registradas pelo Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) do Ministério da Saúde entre os anos de 2011 e 2017, de acordo com Boletim Epidemiológico nº 27, volume 49, de junho de 2018. Ainda de acordo com o mesmo boletim, o estupro e o assédio sexual foram as principais formas de violência registradas, independente do sexo da vítima.

“Eu falei ‘eu preciso levar isso para mais jovens porque eu sei que é isso que se passa na minha comunidade’. Essas adolescentes estão buscando se renovar, ser pessoas melhores. Eu quero que elas vejam isso em mim e busquem isso para elas, que se tornem mais fortes a cada dia”, explica ao comentar porque se tornou jovem multiplicadora.

Créditos: UNFPA Brasil/ Paula Nishizima
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Luziete Castro momentos antes da entrevista com a equipe. Quando perguntada sobre como gostaria que fosse a foto, ela pede para aparecer bagunçando os cabelos.

Não é à toa que as atividades são realizadas de jovem para jovem: “É algo que o pessoal não tem muita comunicação com os pais e com pessoas adultas, porque não se sente muito à vontade”, comenta Hericson Farias, multiplicador de 18 anos que mora em Cruzeiro do Sul (AC). Numa troca de igual para igual, multiplicadores e multiplicadoras vão, aos poucos, inspirando confiança e levando informação para naturalizar o diálogo sobre sexualidades.

Maternidade e saúde

Numa manhã quente de sexta-feira, o grupo de jovens multiplicadores(as) acompanha pacientemente as entrevistas feitas pela equipe na praça 25 de Setembro, em Sena Madureira (AC).

Créditos: UNFPA Brasil/ Paula Nishizima
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Grupo de jovens multiplicadores(as) aguarda o término de uma entrevista nas proximidades da praça 25 de Setembro, em Sena Madureira.

Enquanto parte da equipe se concentra na gravação das entrevistas, o restante do grupo se distribui conversando à sombra das árvores, andando de bicicleta ou tomando açaí no local. Nesse espaço, conversamos com Maiara Rubens, jovem mãe de 19 anos que atua como multiplicadora em Sena Madureira.

Maiara conta que a maternidade foi consequência de um corte no efeito do anticoncepcional que utilizava após tomar um antibiótico para tratar uma infecção urinária. “Aí veio a importância de fazer uma divulgação sobre a dupla proteção (com a camisinha e o anticoncepcional), para que não aconteça com outras jovens o que aconteceu comigo”, indica ela ao explicar que hoje faz da sua experiência um caso a ser abordado em palestras e rodas de conversa com outras adolescentes e jovens.

De acordo com Faculdade de Saúde Sexual e Reprodutiva (Faculty of Sexual and Reproductive Health) da Royal College de Obstetras e Ginecologistas do Reino Unido, a contracepção hormonal tanto pode alterar o efeito de outros medicamentos tomados em paralelo quanto ter sua eficácia alterada por estes.

A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) reproduz uma lista de medicamentos que tem algum grau de interferência em anticoncepcionais orais no seu Manual de Ginecologia Infanto-Juvenil. Ainda assim, a melhor forma de se prevenir continua sendo consultar um(a) profissional de saúde para se informar a respeito de possíveis interações de outros medicamentos com o anticoncepcional.

“No início foi uma maré de julgamento, uma maré de responsabilidade”, relembra Maiara, que teve no fato de ser jovem multiplicadora em saúde como um argumento utilizado contra ela pela família e amigos. A redução da gravidez não intencional entre adolescentes é, sim, um dos objetivos de jovens multiplicadores(as). Porém, seria incorrer em outra violência partir da ideia de que toda adolescente ou jovem que engravida o faz por irresponsabilidade.

“Eu (fui) me afastando de uma certa forma da sociedade, me afastei do grupo por um tempo. Isso está errado, quantas meninas não perderam o foco como eu perdi? A gravidez não é o fim do mundo. Ela é uma nova vida, são coisas novas. Então, você tem que ser camaleão e se adaptar a cada coisa”, aconselha.

No caso de Maiara, a guarda compartilhada com o ex-companheiro, a atenção diferenciada da escola e o apoio da família foram fatores importantes para que ela terminasse o ensino médio e começasse a cursar a licenciatura em Física à noite, além de fazer estágio durante o dia.

Você sabia?

A Lei nº 6.202 de 17 de abril de 1975 estabelece que estudantes grávidas tem direito ao chamado “regime de exercícios domiciliares”, caso não possam frequentar a escola a partir do oitavo mês de gestação. Nesses casos, é preciso apresentar um atestado médico à direção da escola, que deve providenciar o acompanhamento necessário para que a jovem possa continuar estudando sem precisar frequentar as aulas por um período de até três meses (que pode ser prorrogado a partir de orientação médica).

Sobre mídia, estereótipos e dinossauros

Em meio à noite fresca que seguiu o dia de calor intenso, o grupo de jovens se reúne na Praça 25 de Setembro, em Sena Madureira (AC). Ouvem-se vozes animadas, risos e uma cantoria coletiva que acompanha o som do violão. O clima é fruto do encontro de adolescentes e jovens acreanos que vieram de diferentes municípios para dialogar sobre sexualidades, saúde e participação social.

Créditos: UNFPA Brasil/ Paula Nishizima
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Equipe do DiverSUS se reúne com jovens multiplicadores(as) em praça no centro da cidade.

Sena Madureira (AC) é um município com cerca de 40 mil habitantes. Estradas sinuosas que mesclam asfalto e chão batido a separam da capital do Acre, Rio Branco. Dentre as cidades de onde essa juventude veio, a maior delas é Cruzeiro do Sul (AC), que conta com uma população estimada em 82 mil habitantes, de acordo com dados de 2016 da Secretaria de Estado de Planejamento do Acre. A menor é Manoel Urbano (AC), com cerca de 8 mil pessoas.

Introduzir o texto dessa forma pode fazer girar, na cabeça de quem lê, as engrenagens responsáveis por preencher automaticamente as lacunas daquilo que não está escrito. Em menos de um minuto, pode-se imaginar o cenário de uma cidadezinha miúda, com estradas de chão batido, mercearias às moscas e gente carrancuda. Imagens provenientes do olhar viciado de quem só consegue enxergar as cidades de interior a partir do ponto de vista das grandes metrópoles.

Ao conversar com essa juventude que agora senta numa mureta baixa da praça e canta músicas populares, percebemos que esse, entre aspas, “imaginário induzido” reforça estereótipos um tanto absurdos a respeito do Acre e de quem nele vive. “Me perguntaram se o Acre era só inundação, se tinha dinossauros, e como a gente se deslocava de um lugar para o outro”, conta Ana Carolina Serra, jovem de olhos verdes e sorriso largo que compartilha conosco o que viveu em uma viagem para fora do estado. “Eles acham que o Acre é um lugar isolado, que só tem mata”, complementa.

Contrariando esse imaginário, é preciso dizer que a maior parte da população do Acre reside em áreas urbanas: cerca de 84%, também de acordo com informações de 2015 disponíveis no Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS).

Em contraposição a essa visão estigmatizada, o olhar que esse grupo de jovens nos traz é de que existe uma consciência da importância do que a floresta proporciona, mesmo para quem vive na cidade, e do papel dos povos tradicionais na conservação e no trato com a terra, como as populações ribeirinhas, indígenas e demais trabalhadores que dela tiram seu sustento.

“Geralmente eles associam índios e seringueiros a pessoas brutas, que não tem cultura. Isso é muito pejorativo, porque o índio não é alguém sem cultura, e o seringueiro não é alguém que vive isolado na mata. Não é algo que você deveria usar para ofender alguém”, pontua João André de Souza.

Multiplicando, um(a) jovem de cada vez

Apesar do estereótipo de pouca responsabilidade que acompanha as juventudes, João André acredita que todo(a) jovem tem um pouco de multiplicador(a) dentro de si e só precisa de informação suficiente para tomar decisões sobre sua saúde.

“A informação nunca fica só com os jovens com quem fazemos as ações, eles sempre repassam. E esse movimento de repassar a informação é ser um jovem multiplicador. Então, existem milhões de jovens multiplicadores no Brasil, eles só não sabem disso”, comenta.

Nesse sentido, as mãos dadas que aparecem no começo desse texto se tornam, para além de um possível clichê sobre união e igualdade, uma metáfora de fortalecimento mútuo. Um lembrete de que a coletividade pode sempre levar à renovação de energias e esperanças quando não está sufocada pelo medo e pelo peso do julgamento moral. De que desatar os nós que nos separam de nós mesmos exige não deixar ninguém para trás. E isso só é possível com trabalho em conjunto.

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