Ir direto para menu de acessibilidade.
    Você está aqui:
  1. Página inicial
  2. >
  3. Diversus
  4. >
  5. Umariaçu – AM
Início do conteúdo da página

Jovens ticuna e saúde: sexualidade, cultura e pertencimento

Escrito por Gustavo Frasão | Publicado: Quinta, 29 de Novembro de 2018, 16h29 | Última atualização em Sexta, 28 de Dezembro de 2018, 12h19


Em uma das fronteiras com a Colômbia, na Terra Indígena Tukuna Umariaçu, estão os Ticuna, maior população indígena no Brasil. A sensação de ser estrangeiro e sempre ter sido parte daquele universo sem nem saber. Do rito ao cotidiano, entre fronteiras sensíveis, do peixe moqueado às sexualidades em exposição, os jovens Ticuna mostraram um pouco de suas vidas e suas perspectivas.

 


 

Texto: Paula Nishizima

Umariaçu-AM: A chegada na comunidade

Uma estrada de cimento e casas simples de madeira e alvenaria são as primeiras imagens que marcam o cenário após aproximadamente 30 minutos da saída de Tabatinga (AM), cidade brasileira que faz fronteira com a Colômbia e o Peru. O local que estamos adentrando é Umariaçu, comunidade povoada majoritariamente por indígenas da etnia Ticuna.

O caminho é repleto de bases militares nas quais, ficamos sabendo mais tarde, muitos moradores de Umariaçu servem ao Exército. Em alguns momentos, a estrada fornece uma vista de trechos do Rio Solimões, nome dado à continuidade do Rio Amazonas desde a sua confluência com o Rio Negro próximo a Manaus (AM) e que se estende até essa região de tríplice fronteira. Já na entrada da comunidade, vê-se uma feira livre. Não é formada por barracas individuais, mas por uma longa tenda única que abriga o comércio de peixes, pequenos sacos de farinha e outros produtos vendidos por moradores(as).

No trajeto até o local reservado para a primeira atividade com jovens ticuna, chama minha atenção o grande número de crianças transitando a pé pela comunidade. Dados de 2013 do Sistema de Informação de Atenção à Saúde Indígena (SIASI) confirmam posteriormente que não se trata só de uma impressão: Crianças de 0 a 9 anos de idade representam a parte mais densa da pirâmide populacional da comunidade, indicando que elas estão em maior número se comparadas a jovens, adultos e idosos.

De acordo com dados de 2018 da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), Umariaçu possui uma população de cerca de 8.400 pessoas. Uma ponte divide a comunidade entre Umariaçu I e Umariaçu II. Esta segunda, além de ser nosso destino final, é também a mais populosa, com aproximadamente 5.600 moradores(as).

Somos deixados à frente de uma igreja evangélica, local articulado para realização da atividade. Descendo da caminhonete, ouvimos uma voz masculina transmitida por um megafone instalado sobre um poste. “Eles estão chamando os jovens para a atividade”, nos explica uma técnica em saúde, uma vez que a transmissão é feita em ticuna, o idioma local.

Ao adentrar o local, adolescentes e jovens ticuna se distribuem em cadeiras plásticas posicionadas à direita e à esquerda de um largo corredor. A disposição logo é substituída por três ou quatro grandes círculos que melhor atendem à proposta de diálogo e trabalho em grupo prevista para aquele dia.

Créditos: UNFPA Brasil/ Paula Nishizima.
01.IMG 4415 Paula Nishizima jovens indígenas HQ
Mesa organizada com o lanche para a atividade de manhã, com peixe bodó defumado, ingá, farinha de mandioca e aluá, bebida fermentada feita de cascas de abacaxi. Ao fundo, jovens ticuna dialogam sobre histórias tradicionais que posteriormente serão compartilhadas com a equipe.

Os amores na cultura ticuna

Um dos primeiros traços da cultura local com o qual tivemos contato foi a história do triângulo amoroso entre os irmãos Yo’i e Ipi e a jovem Tetiaru Ngui. Conhecida pelo povo Ticuna, a história é contada à equipe do DiverSUS diante de um grupo de aproximadamente 40 pessoas, dentre jovens ticuna, profissionais de saúde e lideranças da comunidade que dividem o espaço onde a atividade acontece.

Créditos: UNFPA Brasil/ Paula Nishizima
02.IMG 4477 Paula Nishizima jovens indígenas HQ
Crianças espiam da porta da igreja a contação da história do triângulo amoroso entre Yo’i, Ipi e Tetiaru Ngui, lenda da cultura ticuna.

Quem empunha o microfone para contar a história é Rossy Fortes Mendes, jovem de 26 anos que relata o caso após o mesmo ter sido contado por uma liderança mais velha da comunidade ao grupo no qual estava inserido. Rossy narra que Tetiaru Ngui era a última fruta de um umarizeiro, árvore de grande porte com o caule e os ramos cheios de espinhos.

Quando a fruta caiu, ela se transformou numa bela moça, que se casou com Yo’i, herói da cultura ticuna. Acontece que seu irmão, Ipi, também era apaixonado por Tetiaru Ngui. Quando saía para caçar, Yo’i escondia a esposa dentro de uma flauta, para que seu irmão não a encontrasse. Depois de muitas buscas frustradas, Ipi utilizou uma estratégia diferente para procurá-la certo dia: foi até a casa de Yo’i e fez caretas e brincadeiras, para que conseguisse achar Tetiaru Ngui pelo som de sua risada. Ao encontrá-la, Ipi soprou a flauta para que ela de lá saísse e ambos namoraram na ausência de Yo’i.

Tetiaru Ngui engravidou e, ao descobrir tudo, Yo’i pediu ao irmão que fosse buscar jenipapo para pintar o corpo da criança. Porém, enquanto subia na árvore para pegar o fruto, esta não parava de crescer, fazendo com que Ipi sofresse um bocado até conseguir cumprir a tarefa que o irmão havia lhe dado. Após capturar o fruto, Yo’i pediu que Ipi ralasse o jenipapo. Este último ralou a fruta sem parar, chegando a ralar até o próprio corpo. Tetiaru Ngui, então, produziu a tinta para pintar o corpo do filho e, uma vez cumprida a tarefa, pegou a borra do jenipapo e jogou no igarapé do Eware, região que corresponde ao local de origem do povo Ticuna.

A cultura ticuna também possui aspectos de organização social que impactam diretamente os relacionamentos amorosos da juventude, tal qual as sociedades ocidentais não indígenas. No caso destas, nos dividimos geralmente em famílias, formadas por pessoas com as quais temos laços afetivos e/ou consanguíneos. De modo geral, namoros e casamentos são feitos entre pessoas de famílias diferentes ou que não sejam irmãos e irmãs.

No caso dos ticuna, existem dois grandes grupos, chamados nações, que poderiam ser lidas como duas famílias distintas: a nação “com pena” e a nação “sem pena”. Cada nação é dividida em subgrupos, que os Magüta (autodenominação dos Ticuna) chamam de clãs. A nação com pena é composta por clãs com nomes de aves, como arara vermelha, maguari, mutum e galinha. Já a nação sem pena é formada por clãs com nomes de animais e plantas como onça, boi, saúva, jenipapo, avaí e buriti. A grosso modo, não é permitido o relacionamento amoroso entre pessoas da mesma nação, o que faz com que um jovem cujo clã faz parte da nação sem pena só possa se relacionar com outra pessoa de um clã da nação com pena.

Gravuras sobre identidade e sexualidade

Foi possível notar algumas expressões dos clãs na tarde do primeiro dia da equipe em Umariaçu II. Nesse momento, jovens participam de uma oficina de confecção de gravuras, com o uso de bandejas de isopor, canetas esferográficas e tinta acrílica preta misturada com jenipapo.

Dentre os desenhos feitos pelos(as) participantes, estão aqueles que remetem aos clãs de maneira direta, como a de uma grande formiga de pernas e presas pontudas e outra com uma ave voando próxima a um coqueiro, mas também outras contendo referências do cotidiano local, como uma vasilha de barro utilizada para colocar água gelada e a representação de homens de rosto pintado e cocar na cabeça.

Se aproximando um pouco mais de temas relacionados à sexualidade, alguns participantes abordam a homo e a lesbofobia em suas gravuras. As produções incitam, de um lado, falas de jovens sobre a importância do respeito à diversidade sexual e, de outro, de pastores de igrejas da comunidade sobre discriminação e preconceito. Em meio às reflexões e exemplos citados, é possível colher pontos de divergência entre os discursos da juventude e dos líderes religiosos.

Créditos: UNFPA Brasil/ Paula Nishizima
07.IMG 4723 Paula Nishizima jovens indígenas HQ
Varal estendido para exibir as produções de crianças e jovens ticuna. A segunda gravura contém a palavra “Diversidade” e apresenta três casais, compostos por duas mulheres, um homem e uma mulher e dois homens, respectivamente.

“Em Manaus, (o comportamento homofóbico) é mais escondido, (acontece) quando um homem te vê sozinho na rua e quer te bater ou fica te xingando, mas quando tem muita gente perto, ele não tem coragem. Aqui em Umariaçu, todo mundo tem medo de se mostrar por causa das fofocas”, explica Robert Medeiros, estudante de 15 anos que nasceu e morou até os 10 anos de idade na capital amazonense e hoje vive em Umariaçu.

Entre o tempo que passou em Manaus e a vinda para Umariaçu, Robert morou com a mãe por alguns anos em Brasília (DF). Segundo ele, foi a partir do tempo que passou na capital federal que construiu o olhar que tem hoje sobre a questão. “Aqui (em Umariaçu) eu já sofri empurrões, xingamentos. Mesmo assim, a gente não se esconde. Porque se eu ficar calado, a comunidade nunca vai mudar”, reflete.

Se, de um lado, Umariaçu ainda aprende a lidar com as questões LGBT (aspecto também não resolvido nas grandes e pequenas cidades), de outro, a sociedade ocidental tampouco conseguiu superar os estereótipos sobre a população indígena. “Quando eu falo que sou indígena vem aqueles comentários do tipo ‘lugar de índio é na aldeia’, ‘como vocês fazem na floresta? Vocês vivem na maloca?’, ‘índio come gente’, essas coisas”, conta Robert.

No enfrentamento ao preconceito e à discriminação, fortalecer os modos de ser e viver da cultura ticuna parece de vital importância, especialmente para os(as) jovens. “Mesmo vivendo bem perto da cidade, temos que dar valor à nossa cultura, às tradições que os nossos avós transmitiram para a gente”, nos diz Rossy Fortes Mendes, o jovem porta-voz da história sobre os amores de Yo’i e Ipi por Tetiaru Ngui.

Não só jovens participam da atividade, mas um grupo de crianças vai se formando aos poucos em volta da mesa montada para a impressão das gravuras. Dentre elas, uma menina que solta um riso fácil e gostoso a cada vez que aponto a câmera em sua direção. Sua gravura contém uma árvore com dois frutos, posicionados lado a lado no centro superior da copa da planta. Aos olhares urbanos da equipe, aquelas duas frutinhas parecem também olhos. Ao dialogar conosco, a pequena gravadora conta empolgada que já conversou com uma árvore. Um lembrete, ainda que sob a ótica infantil, de que uma relação menos agressiva e utilitária do meio ambiente é possível. Em meio a animação do relato, ela acaba mesclando sua fala entre o português e a língua ticuna.

Créditos: UNFPA Brasil/ Paula Nishizima
06.IMG 4725 Paula Nishizima jovens indígenas HQ
Crianças assistem à impressão de gravuras com folhas em diferentes formatos e tamanhos.

Um pouco mais de contexto

Em meio às entrevistas e conversas informais, jovens ticuna apontaram sentir falta de um espaço da juventude, bem como de trabalhos em educação e saúde que sejam contínuos, gerando retorno para a comunidade. Em momentos distintos, diferentes pessoas reforçam que tudo o que foi conquistado em Umariaçu se resume a uma só palavra: Luta. Muita luta. Quando na boca de um dos jovens, essa palavra parece ecoar um profundo respeito pelos que vieram antes e conquistaram as condições de vida desfrutadas hoje. Quando na boca de profissionais de saúde, a sensação que colho é de um pesar pelas dificuldades que são fruto das ausências do poder público para com os povos indígenas na região.

A comunidade de Umariaçu II conta com um pólo base do Distrito Sanitário Especial Indígena do Alto Rio Solimões (DSEI), vinculado à Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) do Ministério da Saúde. O pólo é uma construção simples com paredes de tinta já um tanto desgastada que se destina a serviços como atendimento em saúde, vacinação e coleta de material para exames. Na fachada, junto ao nome do posto lê-se “Torü Maü” (“nossa saúde” em Ticuna). O Distrito Sanitário Especial Indígena do Alto Rio Solimões, fica localizado em Tabatinga (AM) e abrange toda a área correspondente às margens do rio Solimões, no norte do estado do Amazonas até a fronteira com a Colômbia.

Apesar de serem mais numerosos, com aproximadamente 45 mil pessoas, os Ticuna não são a única etnia que habita a região do Alto Rio Solimões. De acordo com dados de 2013 do SIASI, foram registradas populações de outras 12 etnias na área, das quais quatro possuem mais de 100 habitantes, sendo estas Kocama (com mais de 8 mil pessoas), Kaixana, Nadëb e Kambeba (esta última com 117 pessoas).

Interessante notar que, além das comunidades no Brasil, o povo Ticuna também se encontra em partes da Colômbia e do Peru, onde falam o espanhol como segundo idioma. Para os e as indígenas dessa etnia no Brasil, a região fronteiriça (e a presença de familiares e amigos nesses dois países) faz com que alguns jovens em Umariaçu falem o português e o espanhol, além da língua ticuna. Muitas das falas durante as atividades do DiverSUS vieram primeiro em ticuna, seguidas de sua tradução no português. Em alguns casos, um(a) ou mais participantes se comunicavam conosco inteiramente em ticuna, dependendo do trabalho de uma terceira pessoa para fazer a tradução.

Comunicação e pertencimento

Também no campo da linguagem e da comunicação está uma das preocupações da comunidade: a maneira como são retratados(as) por quem vem de fora e o fim dado a imagens produzidas em Umariaçu. “Quando a gente vê, estão ganhando prêmio e a gente nem fica sabendo”, aponta. Na ocasião dessa fala, ele demonstra preocupação quando pedimos seu auxílio para recolher autorizações de uso de imagem de participantes e deixa transparecer gravidade ao se colocar como responsável pela comunidade.

Esse jovem é Aldielson Mendes, ou Yau’recü, nome ticuna pelo qual atende e faz questão de ser chamado. Sua preocupação vem de um conhecimento de causa, uma vez que ele integra a Rede de Jovens Indígenas Comunicadores do Alto Rio Solimões (REJICARS), composta por jovens das etnias Ticuna, Kocama e Kambeba.

Créditos: UNFPA Brasil/ Paula Nishizima
10.IMG 4853 Paula Nishizima jovens indígenas HQ
Jovens ticuna reunidos(as) às margens do Rio Solimões, próximo à ponte que liga Umariaçu I e II.

Em uma conversa próxima às margens do Rio Solimões, ele me conta que é requisitado para muitas das atividades que envolvem assuntos da comunidade, razão pela qual quase não para em casa. Como consequência, costuma carregar consigo um pendrive com documentos e arquivos necessários para participar desses compromissos. Me surpreendo ao perceber que ele não só faz menção ao pendrive, mas também o carrega num cordão pendurado no pescoço no exato momento em que conversamos. O adereço eletrônico se esconde discreto debaixo de um colar de penas e contas que está usando.

Yau’recü também me explica que seu envolvimento e participação nas pautas coletivas vem da família, especialmente do pai Valdir Araújo Mendes, por quem tem enorme admiração. “Se você perguntar pela família Mendes, todo mundo aqui conhece”, me diz com um gesto largo com os braços, apontando as fronteiras que vão para além de Umariaçu I e II e abrangem também as comunidades indígenas da Colômbia e do Peru. Segundo o que me conta, sua casa abriga uma série de documentos que guardam um pouco da história do povo Ticuna, os quais não tem o costume de mostrar para quem vem de fora: é algo dos ticuna para os ticuna.

Já é fim de tarde quando, dividindo o espaço da traseira de uma caminhonete que percorre Umariaçu II para o nosso retorno, Yau’recü me diz sorrindo que já recebeu ofertas de trabalho na cidade, mas recusou: Não quer sair de Umariaçu. Aquilo me soa óbvio. Não esperaria outra coisa do jovem que, no dia anterior, se voluntariou para falar sobre a própria gravura e disse que aquela era uma crítica ao indígena que tem vergonha de assumir sua identidade perante o mundo  não indígena, de usar cocar na cabeça e pintar o rosto com jenipapo. O desenho continha o rosto dividido de um homem: metade indígena, metade “branco”.

No caminho, vamos parando para deixar jovens ticuna em suas casas. Em sua despedida, uma das técnicas em saúde que fez parte do trajeto conosco lembra Yau’recü de um compromisso que terão na semana. “Leva o teu pendrive”, recomenda ela. O restante do nosso caminho de saída da comunidade é acompanhado pelo pôr do sol. A brisa fresca que bagunça os cabelos já fez esquecer o calor de quase 40 graus sob o qual estivemos trabalhando nos últimos dois dias em Umariaçu. Me despeço em silêncio da alma daquele lugar, já num último esforço para manter viva a memória dos rostos, sons e sabores que descobri ali.

 

Galeria de Fotos

registrado em:
Fim do conteúdo da página