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Iniciativa inédita da Sesai cria intercâmbio entre equipes que trabalham com etnias de recente contato

Escrito por Tatiana Teles | | Publicado: Segunda, 08 de Janeiro de 2018, 17h49 | Última atualização em Segunda, 08 de Janeiro de 2018, 17h49

Nesta primeira experiência, a equipe que trabalha com os Awá Guajá, no Maranhão, foi conhecer as práticas de saúde na Terra Indígena Cuminapanema, onde vive o povo Zo’é

Fotos: Marla Galdino

Ministério da Saúde promove intercâmbio entre equipes que trabalham com etnias de recente contato

No primeiro dia de dezembro, a enfermeira Sandra Duarte e a técnica de enfermagem Sandra Pena iniciavam uma rotina mensal que se repete há muitos anos. Terminar de arrumar as malas; comprar alimentos suficientes para quinze dias fora de casa; no polo base de Santarém (PA), conferir os medicamentos necessários para mais esta entrada em área; e, por fim, pegar o avião que as levará para a Terra Indígena Cuminapanema, no noroeste do Pará, onde vive o povo Zo’é, etnia de recente contato que mantém um modo de vida baseado em tradições ancestrais. Mas esta não é uma jornada como as outras. Desta vez, as duas Sandras e o médico Erik Jennings Simões seriam anfitriões de um trio de visitantes pouco usual: a enfermeira Renata Souza, o técnico de enfermagem Valdenor das Neves e o agente indígena de saúde Ytatxi Guajá, que atuam na Terra Indígena Caru, no noroeste do Maranhão, prestando assistência em saúde ao povo Awá Guajá, outra etnia de recente contato. Os visitantes, por sua vez, também estavam ansiosos para conhecer experiências passíveis de reprodução em seu próprio cotidiano.

A iniciativa do intercâmbio entre profissionais que trabalham com etnias de recente contato é do Departamento de Atenção à Saúde da Secretaria Especial de Saúde Indígena (DASI/Sesai). O objetivo é a troca de experiências para enriquecer a discussão sobre o modelo diferenciado de atenção à saúde aos povos de recente contato e isolados, considerando a complexidade e vulnerabilidade física e sociocultural destes povos. De acordo com a Fundação Nacional do Índio (Funai), indígenas de recente contato são “grupos (povos ou fragmentos de povos) que mantêm relações de contato permanente e/ou intermitente com segmentos da sociedade nacional e que, independentemente do tempo de contato, apresentam singularidades em sua relação com a sociedade nacional e seletividade (autonomia) na incorporação de bens e serviços”. Ou seja, são grupos que mantêm fortalecidas suas formas de organização social e suas dinâmicas coletivas próprias, definindo sua relação com o Estado e a sociedade nacional com alto grau de autonomia. Ainda conforme a Funai, há povos indígenas de recente contato em 19 terras indígenas brasileiras, aí incluídas as etnias Zo’é e Awá Guajá.

Ao longo de quatro dias na terra indígena, as duas equipes relataram alegrias e dificuldades e, entre outras conclusões, verificaram que, apesar de trabalharem com etnias diferentes, os dilemas que envolvem o cotidiano desses profissionais podem ser muito semelhantes.

“Dividimos dificuldades e objetivos comuns”, endossa o médico Erik Simões, apontando para a necessidade de uma legislação específica para a atenção em saúde  aos povos indígenas isolados e de recente contato. “Para resolver em área 80% dos problemas de saúde da população, são necessários alguns recursos tecnológicos não previstos na atenção básica e é preciso garantir maior autonomia ao profissional de saúde”, avalia Simões, um neurocirurgião santareno que começou a atuar na TI Cuminapanema como voluntário, há cerca de 15 anos, e estabeleceu um vínculo afetivo permanente com as 31 famílias que vivem na região. Hoje ele é contratado pela SESAI/MS.

Experiência sensorial – Já no primeiro dia de intercâmbio, o desafio proposto aos visitantes foi praticamente uma experiência sensorial. Sim, mais que saber como o trabalho é desenvolvido, foi possível sentir. Sentir o cansaço de 15 quilômetros de caminhada na mata fechada, sentir os aromas e sabores da floresta, sentir picadas de formigas que atravessam pelo caminho, sentir a delicadeza e receptividade do povo Zo’é.

A caminhada foi para realizar uma consulta domiciliar a uma paciente portadora de mielite, doença que compromete a autonomia motora e requer avaliação médica periódica e uso continuado de medicamentos. Nos tempos de cheia dos igarapés da região, a família a leva até a unidade de saúde de barco, mas quando o leito dos rios está mais baixo, é preciso que a equipe se desloque a pé até lá.

Ao longo do caminho, Sandra Pena e Valdenor das Neves trocavam conhecimentos sobre plantas e ervas medicinais. Valdenor, que é indígena da etnia Guajajara, falava o nome das plantas que encontrava em sua língua e Sandra dizia o nome destas na língua Z’oé, também do tronco Tupi. Entre outras coisas, descobriram novas aplicações para plantas que já conheciam. “A Sandra não sabia que a planta que chamamos de jasmim, na língua portuguesa, serve para tratar lesões de pele”, exemplificou Valdenor.

O dia-a-dia – No segundo dia de visita, a equipe maranhense pode vivenciar a rotina diária dos profissionais do Pará. O médico Erik atendeu aos pacientes que já haviam sido avaliados pelas profissionais da enfermagem. Apesar de neurocirurgião, um dos poucos da região de Santarém, lá ele é generalista. Atende a todos com paciência, e falando a língua dos Zo’é.

“Vi como é importante a gente aprender a língua, isso dá muita segurança para eles (os indígenas)”, reconheceu a enfermeira Renata Souza, que atua em três aldeias do povo Awá Guajá há um ano e nove meses. “Ainda não consigo falar na língua Awá, entendo mais do que falo, agora vou me empenhar mais para aprender”, planeja. “Se a gente fala a língua, passa segurança para o usuário, o que é essencial para o nosso trabalho”, concorda Sandra Pena, que atua na TI Cuminapanema há nada menos que 13 anos.
A baixíssima rotatividade da equipe de saúde, por sinal, pode ser considerada um dos segredos da qualidade da assistência em saúde prestada ao povo Zo’é. Nenhum dos profissionais tem menos de cinco anos de atuação na área. As “novatas” são a enfermeira Sandra Duarte e a dentista Adriana Gomes, que completaram cinco anos no local, e que antes trabalharam com outra etnia indígena por longo período.

Tratamento fora do domicílio – Uma das especificidades do modelo de assistência em saúde do povo Zo’é são as pouquíssimas saídas da terra indígena para realização de exames e outros procedimentos de média e alta complexidade. O consultório médico da unidade pode funcionar como centro cirúrgico, onde são realizadas intervenções como cirurgias de hérnias e de cataratas. Quando verifica a necessidade, Erik pede apoio a um colega de profissão da especialidade correspondente e o leva até o local, evitando, assim, que os pacientes precisem se deslocar até Santarém para fazer uso de outros serviços do Sistema Único de Saúde (SUS). “Em todo o ano de 2017, precisamos trazer para a cidade apenas cinco pacientes, o que já é muito em relação a anos anteriores”, contabiliza Erik, acrescentando que duas das pessoas fazem tratamento continuado, a paciente portadora de mielite e um outro com oncologista. “O tratamento do câncer já foi concluído, mas tem as revisões periódicas e o médico não vem até aqui, porque tem medo de voar em avião pequeno”, conta Erik.

Saúde da mulher – Uma das questões levantadas nas conversas entre as duas equipes estava relacionada a ações programáticas preconizadas pelo Ministério da Saúde, especialmente as de saúde da mulher e da criança. “A gente procura chegar o mais próximo possível do previsto nos protocolos, mas sem interferir demais na cultura deles”, explicou a técnica de enfermagem Sandra Pena. “Precisamos ter muito cuidado com isso, porque, achando que estamos salvando vidas, podemos estar matando uma cultura”, asseverou Erik.

Mas o que deixou a equipe maranhense mais surpresa foi a caderneta da gestante que está sendo desenvolvida exclusivamente para o povo Zo’é. “A caderneta da gestante da rede cegonha é escrita em português, o que já não é adequado para esta população, que nem fala português, e muito menos lê e escreve, e também tinha muitas informações que estão associadas à vida nas cidades, não à vida na floresta e com outros padrões culturais”, explicou a enfermeira Sandra Duarte, ao mostrar o protótipo da nova caderneta. Em uma folha no tamanho A4, toda a informação de interesse da gestante Zo’é é não verbal. As quatro fases da lua são utilizadas para marcar o início da gestação. Os números são demonstrados com os dedos da mão e, para cada mês da gestão, uma ilustração mostra em que estágio de crescimento está o bebê. No verso, informações como pressão arterial, peso e outras necessárias à avaliação do estado da gestante.

Gestão da Informação - Em reunião na unidade de saúde dos Zo’é, as duas Sandras apresentaram aos visitantes as fórmulas que encontraram para manter todas as informações disponíveis para todos os profissionais, especialmente às duas enfermeiras e duas técnicas de enfermagem, que se revezam no trabalho na Terra Indígena. “Como as famílias estão espalhadas no território, temos que aproveitar a vinda deles até aqui para fazer todos os procedimentos que são necessários”, explica Sandra Duarte, referindo-se a ações como atualização do esquema vacinal e exames de pré-natal.

As informações são organizadas em 13 formulários e quatro livros, com informações relacionadas às vacinas administradas, por cada integrante de cada família, de consultas de pré-natal e de desenvolvimento, de internações no posto (quando precisam fazer algum tratamento, os indígenas costumam passar o período na unidade de saúde ou nas proximidades), de encaminhamento de amostras para exames laboratoriais ou de saída de pacientes para tratamento fora do domicílio.

Ao tratarem de Vigilância Alimentar e Nutricional, Renata descobriu que a equipe do Zo’é faz acompanhamento de peso também dos adultos. Aproveitou para colocar aos colegas de profissão uma dificuldade com relação aos parâmetros de peso, altura e desenvolvimento de crianças menores de cinco anos. “Os Awá são um povo de pequena estatura e os parâmetros previstos muitas vezes não se aplicam”, afirma Renata.

Prevenção – Para o Agente Indígena de Saúde Ytatxi Guajá, que além de trabalhar com a equipe de saúde também exerce liderança em sua comunidade, a lição que leva para a sua aldeia é a preocupação do povo Zo’é com a transmissão de doenças e com a limpeza dos ambientes em que vivem. “Quem fica gripado fica separado dos que não estão, meu povo não tem essa preocupação”, afirma, impressionado por não ter encontrado “uma folha no chão” nos arredores das casas que visitou. “Eles deixam tudo muito limpo, sem lixo espalhado”, constatou.

Agora a expectativa é para a visita que a equipe de saúde dos Zo’é fará à dos Awá, no Maranhão, que deve acontecer ainda no primeiro semestre de 2018. Até lá, a amizade vai se consolidando por meio de um grupo de whatsapp, onde Renata Souza e Valdenor das Neves já vêm postando algumas imagens do que querem mostrar por lá. “Eu gostaria de conhecer ainda mais profissionais que trabalham com etnias de recente contato, porque isso é muito enriquecedor”, afirma Renata, resumindo um sentimento que é de todos que participaram desta primeira etapa do intercâmbio.

Por Beth Almeida, do  Nucom  Sesai
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