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EXPEDIÇÃO DE SAÚDE

SESAI promove ação pioneira no combate ao tracoma/triquíase entre indígenas do Alto Rio Negro

Escrito por Leonardo | | Publicado: Quarta, 16 de Novembro de 2016, 17h18 | Última atualização em Quarta, 16 de Novembro de 2016, 17h18

Mutirão de cirurgias oftálmicas acontece entre os dias 13 e 18 na região de Yauaretê, em São Gabriel da Cachoeira (AM)

A Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) deu início no último domingo (13) à primeira Expedição Tracoma/Triquíase, uma ação pioneira que está levando para o meio da floresta amazônica um mutirão de cirurgias oftálmicas. O objetivo da Expedição é erradicar os casos de Tracoma entre os indígenas da região de Yauaretê, localizada ao norte do município de São Gabriel da Cachoeira (AM). Até a próxima sexta-feira (18), uma equipe composta por três cirurgiões estará realizando cirurgias plásticas, reparadoras, para casos em que a doença já apresenta quadros mais avançados de deformidade (triquíase) em indígenas.

O grande diferencial desta ação é que as cirurgias acontecem em área indígena, na região onde foram diagnosticados mais casos da doença. Para isso, uma grande força tarefa, que envolve ainda o Ministério da Defesa, a Fundação Nacional do Índio (Funai) e a Organização Não- Governamental Expedicionários da Saúde (EDS), foi composta para garantir suprimentos, logística no transporte de equipes de saúde, alimentos, medicamentos e insumos até as regiões indígenas, bem como profissionais para realizarem os procedimentos de saúde.

De acordo com o secretário Especial de Saúde Indígena, Rodrigo Rodrigues, a expedição ratifica o compromisso do Ministério da Saúde de promover uma atenção especial aos povos indígenas, levando importantes serviços de saúde até as aldeias e promovendo iniciativas que proporcionem melhoria de vida para milhares de indígenas.

“Com as expedições em Yauaretê e em Assunção do Içana, ambas no Alto Rio Negro, estaremos dando um passo significativo para melhorar a qualidade de vida de centenas de indígenas que vivem na floresta, longe dos centros urbanos, e que dificilmente se deslocariam para as cidades para realizar estas cirurgias”, destaca Rodrigues.

EXPEDIÇÃO
O planejamento de levar a expedição de tracoma/triquíase até São Gabriel da Cachoeira surgiu depois de um trabalho pioneiro realizado pelo Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Alto Rio Negro e Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS) na identificação destes casos entre indígenas da região.  “No início dos anos 2000, fui o primeiro médico a realizar uma cirurgia de triquíase em área indígena, trabalho que tive a honra de publicar posteriormente”, recorda o médico cirurgião Oscar Soares, que na época atuava como médico do DSEI na região de Yauaretê.

Em 2013, o DSEI realizou um levantamento e chegou ao número de 119 indígenas vivendo com tracoma na região de São Gabriel da Cachoeira. “A partir dali o Ministério da Saúde passou a monitorar os casos e, neste ano, veio a proposta de realizar o mutirão em área indígena. Em agosto as equipes de saúde do DSEI foram capacitadas para realizar uma nova triagem e agora, em novembro, a nossa expectativa é de operar 100% dos casos diagnosticados”, explica a enfermeira do DSEI ARN, Ana Luiza Pippa.

TRACOMA/TRIQUÍASE
De acordo com o médico Oscar Soares, o tracoma/triquíase é uma conjuntivite bacteriana que se estabelece, inicialmente, sem sintomas na conjuntiva do olho. Ela começa com uma simples coceira e vai se perpetuando de forma silenciosa. Ao longo dos anos, a doença passa a acumular cicatrizes nas pálpebras dos olhos, decorrente da ação bacteriana. Essas cicatrizes vão deformando a pálpebra que, com o passar do tempo, passa a se contorcer e lesionar a retina ocular. Essa lesão pode levar a uma cegueira irreversível.

“Quando vi os primeiros casos de triquíase entre os hupdas (etnia presente na região) achava aquela situação insuportável, tamanha a dor que aquilo provoca”, relembra Oscar.

Na população indígena do Alto Rio Negro, a doença tem se manifestado com maior presença entre indígenas da etnia hupda, considerados de recente contato. Entre as crianças as incidências tendem a ser maiores devido ao grau de socialização ser maior.

Para Oscar Soares, que durante anos atuou diretamente no cuidado do povo hupda, dois fatores devem ser levados em consideração ao avaliar a predominância do tracoma/triquíase entre eles.

“O primeiro diz respeito ao impacto do contato com o não indígena, que introduziu novos hábitos ao povo hupda, entre eles o uso do algodão fabril, com o qual são feitas as redes de dormir. Outro aspecto diz respeito ao acesso à água tratada, com a qual o simples ato de lavar as mãos e o rosto já ajudaria a combater a doença”, explica Oscar Soares.

De acordo com ele, as cirurgias são rápidas, não requerem nenhuma complexidade hospitalar e os benefícios são imediatos. “Para povos de alta mobilidade como são considerados, conhecidos pelas habilidades com a caça e coleta, ou seja, por se tratarem de povos da floresta, essas cirurgias proporcionam um beneficio imediato e a possibilidade de continuar a ter uma vida saudável num meio onde a visão é uma grande aliada”, destacou.

Por Felipe Sampaio
Fotos: Luís Oliveira

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